María Inés Krimer
Aquilina
184 páginas
Acredito, com prazer e sem exagerar, que assistimos, com esta novela, ao nascimento de um personagem. E não é pouco. Sobretudo porque ao se tratar de uma ficção enquadrada dentro do gênero policial, poderíamos anunciar, com certa dose de previsível entusiasmo, a aparição de um ou uma detetive original. E é certo, mas não suficiente para definir o que acontece. Por que Ruth Epelbaum é muito mais do que isso. É um personagem pleno, quer dizer, sentimos que tem vida própria. É uma garota judia argentina de certa idade que termina – já falamos – detetivo. Quando vai à cabelereira ou toma chá na cozinha com Gladys, a empregada; quando sua inclassificável prima Lea a conecta com Chiquito Gold e pedem que localize a esquiva Debora; quando encontra um cadáver no Tigre ou conhece um cara no ônibus que vai até a província de Parana; quando o passado familiar, a Swi Migdal e algo que a conecta com o nome da bíblica moabita, sozinha e solitária, a faz entrar numa história tenebrosa. Nunca deixa de ser uma garota, nunca deixa de estar na Argentina de hoje, de viver em Villa Crespo, de fazer biscoitos ou transpirar atrás do juiz careca Fontana na academia; é judia todo o tempo e tem os anos, o corpo, a vontade, as amigas e os pontos que teve ou se cruzam a cada tanto: Ruth existe. E existe o mundo no qual se move. Mérito absoluto de María Inés Krimer.